Design / Aparência Estético-Formal do Objeto

“O conceito de estética provém da palavra grega aisthesis e significa percepção sensorial. A estética é a ciência das aparências percebidas pelos sentidos”. (Löbach, 1981).

No design, a aparência estético-formal do objeto diz respeito aos seus atributos de configuração física e ao estilo de sua identidade visual. É o aspecto psicológico da percepção sensorial do objeto, sobretudo durante o seu uso e, de modo indireto relaciona-se, principalmente, com suas características ergonômicas, simbólicas e semióticas. Em assim sendo, pressupõe-se que o designer deve possuir um repertório cultural e uma bagagem tecnológica que o habilite a equacionar e resolver de maneira criativa e adequada a aparência estética do objeto.

Por outro lado, é fundamental esclarecer que esta aparência não é determinada apenas pelo “gosto” ou “preferência” pessoal do designer durante a concepção e projeto do produto 2. De fato, a definição da configuração do objeto insere-se dentro de um processo mais amplo de comunicação estética, que é parte intrínseca do processo do design do produto.

Processo de Comunicação Estética
O processo de comunicação estética tem início no momento em que se começa a conceber e desenvolver o projeto de qualquer objeto na seqüência da relação Design-Produto-Usuário, que se traduz como:

  1. O designer como Remetente       > criador do produto;
  2. O produto como Mensagem      > produto físico ou virtual;
  3. O usuário como Destinatário    > consumidor do produto.

No contexto desse processo o designer, necessariamente, deve ter em mente outras considerações estéticas relativas ao estudo da forma do objeto, como segue:

Estética do objeto
Resultado final da aparência do produto. É concernente aos sinais e às suas características configuracionais. Isto é, refere-se à adoção de um determinado estilo estético-formal adotado pelo designer. Por exemplo, o produto poderá se configurar por: formas orgânicas, geométricas ou combinadas, padrões cromáticos diversos, diversificados acabamentos, variados ornamentos, e assim por diante.

Valor estético
Referente aos sistemas de normas sócio-culturais de indivíduos ou grupos sociais, que contribuem com parcela de influência na aparência do objeto. Existem notórias diferenças de valores culturais e econômicos, do ponto de vista regional, nacional e continental. Inclusive entre pessoas que vivem no centro das grandes cidades e aquelas que vivem na periferia, por exemplo. Isto faz com que, naturalmente, a educação visual do usuário seja afetada nos diferentes modos de percepção, não uniformes, dos objetos.

Estética generativa / Processo de design
A estética generativa contribui diretamente no processo do design do produto na fase de pesquisa, estudos, experimentos etc. que vão concorrer para a definição final da sua configuração. Ela é alusiva ao emprego da teoria estética no processo do design. É a utilização dos conhecimentos do designer sobre a estética e a organização visual da forma do objeto (sua Gestalt), assimilados nos bancos escolares, na literatura de modo geral e por outros meios, que devem fazer parte do seu repertório conceitual e prático.

Estética da informação / Processo de uso
É relacionada com o processo de percepção e consumo visual do produto pelo indivíduo, no processo de uso. São as informações e conhecimentos próprios do usuário-consumidor, com o qual ele vai julgar o valor da aparência estética do objeto em última instância. A estética da informação tem relação direta com o processo de uso do objeto pelo indivíduo – sobretudo com relação a parâmetros ergonômicos. São informações que o designer vai recolher dos consumidores como processo de “realimentação” de suas informações para um eventual redesign do produto.

Estética empírica
Concerne à investigação de idéias sobre valores estéticos em pesquisas realizadas com grupos de usuários selecionados (tarefa geralmente de Marketing). São conhecimentos que devem chegar ao designer e serem levados em consideração na formulação estética do objeto. Funciona como uma “realimentação” de informação para, eventualmente, ser transposto para o produto. Trata-se de uma ajuda a mais e, ao mesmo tempo, é um fator importante que pode concorrer para o sucesso do produto no mercado consumidor.

Em síntese, para definir uma solução estético-formal adequada de um produto, no contexto desse processo de comunicação estética e até como pré-requisito, o designer deverá trabalhar com diversas informações. Como por exemplo: dados de natureza culturais, científicos e tecnológicos; fatores de marketing como tipo de consumo, perfil do usuário-consumidor, poder aquisitivo de classes sociais etc.; levar em conta imposição de objetivos mercadológicos pela empresa fabricante do produto, e assim por diante.

Em resumo, o designer deve articular esses conhecimentos de maneira criativa, talentosa e coerente, para atingir os objetivos de conferir a melhor aparência estético-formal ao produto industrial. 

  1. O termo objeto aqui se conceitua como qualquer produto, sistemas de produtos e sistemas de informações e comunicação com os quais o homem mantém uma efetiva relação de utilização – nos níveis intelectual, físico e sensorial.
  2. Salvo as raras exceções de profissionais experientes e já consagrados que ditam moda e estilo. Mesmo assim estes profissionais não trabalham sozinhos e muitas das considerações do processo de comunicação estética são praticadas por eles.

Estilo do Objeto
O estilo pode ser definido como uma qualidade intrínseca do produto. O estilo marca e confere identidade própria em termos de importância e diversidade da estética do objeto. Preferencialmente, deve oferecer um algo a mais que concorra para provocar uma atração agradável e admiração imediata, para chamar à atenção para a aparência do produto.

No estilo pode ser agregada uma série de valores de ordem sensível e emocional que toquem o usuário. Semanticamente pode denotar e conotar variados significados, sobretudo por meios simbólicos. Do ponto de vista de mercado, muito das soluções formais também favorecem evidentes reflexos positivos na venda do produto.

Em diferentes épocas, países e distintos contextos políticos, econômicos e sociais, surgem diferentes estilos e movimentos culturais de que são exemplos, entre outros, o Art Nouveau, Construtivismo, Bauhaus, Internacional, Art decô, Streamlining, Pop, Radical Design, HighTech e Post-Modernism.

Aliás, nesse sentido, o automóvel é um exemplo emblemático que sintetiza bem a importância do estilo visual, desde a sua invenção e durante todo esse tempo em que foram inovados mundialmente por nações de culturas diferenciadas. São inumeráveis as configurações estético-formais, estilos e diversificados simbolismos impostos em variados tipos e modelos de carros.

Gestalt do Objeto
Necessário lembrar que, associada ao conceito estético-formal do objeto, a organização visual da forma contribui com um importante papel. Desse modo, no design deve-se pensar e articular os conceitos e atributos projetivos referentes à configuração do produto que, sem dúvida alguma, se relaciona e influencia na melhor qualidade de seu padrão estético. Como, por exemplo, com relação aos princípios ditados pelas leis da Gestalt conectadas às categorias conceituais de harmonia, equilíbrio, contraste visual e adequada pregnância visual, incluindo as categorias conceituais relativas às técnicas visuais aplicadas. (GOMES, 2008).

Ergonomia do Objeto
A aparência estética do produto guarda também uma relação indireta com a ergonomia. Esta relação se legitima pelo fato de que na configuração de qualquer produto é necessário que este atenda ao seu uso sensível no interior do processo de percepção multissensorial do usuário. De fato, segundo Löbach, 1981 “todos os sentidos do indivíduo participam ativamente deste processo, sendo muito raro uma percepção apenas unidimensional”.

Assim no processo do design deve-se também articular, de modo criativo, os conceitos ergonômicos básicos para conceber um objeto no que se refere ao atendimento dos requisitos práticos e conceituais de eficácia de uso, conforto, segurança e os de percepção sensorial – que são imprescindíveis no projeto do objeto e que, naturalmente, vai influenciar a aparência final do produto. (GOMES, 2003).

Semiótica do Objeto
A aparência estética do produto guarda também relação indireta com a semiótica, colocada aqui restrita as suas três dimensões: sintática, semântica e pragmática.

Na sintática, refere-se às relações formais entre os signos e sua correspondência com outros signos. É a descrição do funcionamento técnico do produto, sua organização física, estrutural, visual, estético-formal e suas inter-relações sistêmicas.

Na semântica, na relação entre os signos e os objetos, ou seja, seus significados. Refere-se à dimensão do próprio objeto e do que ele pode significar no contexto de varias relações entre signos diversos. Sendo a própria significação do produto.

Na pragmática, entre os signos e seus usuários, ou seja, seus interpretes. Sendo a descrição da compreensão lógica do produto. São suas leis de funcionamento, de sua utilidade.

Em síntese, as dimensões abarcam, principalmente, as inferências e os significados denotativos, conotativos e simbólicos transmitidos pelo objeto – em razão de seus diversos atributos, qualidades expressivas, características de representação etc. relacionados à sua estrutura física, materiais empregados, padrão tecnológico, padrão cromático, qualidade de acabamento, ordenamento de seus elementos constituintes, funcionamento e usabilidade.

Bibliografia
GOMES FILHO, João. Design do objeto: Bases conceituais. São Paulo: 2 reimpressão. Escrituras Editora. 2012.
GOMES FILHO, João. Gestalt do objeto: sistema de leitura visual da forma. São Paulo. 10a ed. Escrituras Editora. 2012.
GOMES FILHO, João. Ergonomia do objeto: sistema técnico de leitura ergonômica. São Paulo: Escrituras Editora. 2a ed. 2010.
LOBÄCH, Bernd. Design industrial – bases para la configuração de los productos industriales. Barcelona. Ed. Gustavo Gili. 1981.
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Dados do autor:

João Gomes Filho
Doutor em arquitetura e urbanismo pela USP. Mestre em estruturas ambientais urbanas pela USP Designer industrial pela FAAP. Professor de cursos de graduação e pós-graduação em design. Consultor em ergonomia e design.
Autor dos livros: Gestalt do Objeto: sistema de leitura visual da forma / Ergonomia do Objeto: sistema técnico de leitura ergonômica / Design do Objeto: bases conceituais. Todos pela Editora Escritura. São Paulo.

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